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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dona Etelvina, os acidentes no trânsito e os limões do Wandercleif

Segundo pesquisas, 21,3% dos acidentes
com motos envolvem o uso de drogas ilegais
ou álcool
Trânsito brasileiro é o 5° mais violento do mundo. Razões é que não faltam.
Que os acidentes de trânsito são de matar, isso todo mundo sabe. Principalmente no Brasil. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), nosso país ostenta o 5° lugar mundial entre os trânsitos mais violentos do mundo. Números apontados pelo sistema de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT), indicam que são 150 mortes por dia em todo o país. Isso resulta na bagatela de 54.00 almas enviadas ao além, quem sabe prematuramente, todos os anos.
Outro importante levantamento, realizado pelo Instituto Sangari, especializado em pesquisas científicas, aponta que o Brasil é o segundo país do mundo em mortes em acidentes de motos. Nos últimos 15 anos a taxa de mortalidade em acidentes com os veículos sobre duas rodas aumentou cerca de 846%, enquanto a de carros, com suas saudáveis quatro rodas, cresceu apenas 58%. É evidente que tanto num caso quanto no outro, o trânsito é um inferno. Mas, no caso no que se refere às motos, é evidente que o capeta é mais sedutor e mais guloso.
Além de aumentar as estatísticas de mortes e acidentes no trânsito, esses aventureiros também causam um rombo aos cofres públicos. Somente no estado de São Paulo, o SUS gasta cerca de 57 milhões de reais a cada ano para com as vítimas graves de acidentes. O Ministério da Saúde garante que cada paciente internado por seis meses em um hospital custa qualquer coisa a partir de 300 mil reais. Todos os dias vemos nos telejornais e nos impressos notícias sobre o assunto. Mostram ousadias e imprudências flagradas ao vivo. Gente sem cinto de segurança, motoristas que não sinalizam com antecedência ao fazer manobras, pilotos de Fórmula 1 em vias locais. Nem assim eles aprendem.
Minha velha amiga Dona Etelvina, sem querer, entrou para essas estatísticas, como vítima indireta. Afinal, sofrimento pelos outros também conta. Segundo ela, seu sobrinho Wandercleif (juro que é assim que se escreve) foi praticamente morto num acidente de trânsito, e com moto. Ele e seus chegados bebiam latas, cascos, copos e o que mais houvesse pela frente, devidamente embalados pelo ritmo pagodeiro do Zeca e outros igualmente competentes, quando, não mais que de repente, acabaram os limões. Partiram ele e Heitor das Moças, acelerados, antes que o mercado fechasse. Ele no guidom, Heitor na garupa. Na volta, foram parar na UPA JK, nosso único Pronto Socorro central até o momento, por conta de um cachorro bandido que atravessou a pista sem obedecer ao sinal. Em lágrimas, e do fundo de sua angustia, Dona Etelvina me contou toda a história de dor e desespero familiar a que foram submetidos.
– Dotô, cheguei no JK e não tinha médico cubano que desse conta daquilo. Era estropiado pra tudo que é lado. Sexta à noite e fim de semana é assim mesmo. Só dá maluco. Graças a Deus não era nada demais. Só o braço quebrado. O Heitorzim nem isso. Só umas esfoladuras aqui e ali.
–  Menos mal, respondi. Que bom que os dois não tiveram nada nada mais grave...
– É. Mas sabe qual foi a primeira coisa que o  Wandercleif me perguntô quando me viu?
– Me conte, Dona Etelvina...
– “Acharo os limão?” Pode uma coisas dessas, dotô?
Realmente, eles não aprendem.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O amor está no ar

A nova geração de idosos, ao invés de se trancar em casa, quer sair e, sem dúvida, se enamorar
Um antigo ditado diz que a ocasião faz o ladrão. Sem tomar a coisa ao pé da letra, há que se reconhecer que é um ditado espertinho. O quesito oportunidade é uma das variáveis condicionantes das ações humanas, sociologicamente falando.
Lembrei disso porque é junho e por causa de Dona Etelvina, é claro. Minha vizinha anda rueira como nunca e ultra bem humorada. Tornou-se assídua frequentadora das academias de ginástica abertas pela Prefeitura e diz, com um olhar meio sapeca, que está cuidando da saúde e do “corpitcho”.
Quem não conhece essas academias, devia conhecer. Bem equipadas, são seguras, gratuitas e oferecem uma excelente oportunidade para as pessoas praticarem exercícios físicos e cuidarem da saúde. Mas, principalmente, estão se tornando pontos de encontro, ou seja, locais para o estabelecimento de relações sociais regulares. Encontros regulares são, como se sabe, uma oportunidade necessária para a criação de vínculos afetivos – entre eles, os de natureza romântica.
Pois muito bem. Das cinco Academias da Cidade já existentes, minha vizinha frequenta três: a da Praça da Glória, a da Firmo de Matos e da Gil Diniz. Eu achava isso meio estranho devido à distância entre uma academia e outra. Mas entendi tudo quando ela veio pedir minha opinião sobre presentes para o dia dos namorados – três presentes. Claro que fui discreto e, apesar da curiosidade imensa, nem perguntei se os mimos seriam destinados a três homens diferentes. Suspeito que eram.
A verdade é que namorar é muito bom. O namoro é uma atividade física, mental e emocional que, além de óbvios benefícios psicológicos, ajuda a combater problemas de pele, de circulação, das articulações, e muitos outros. Mas, no caso da chamada terceira idade, isso ainda é problemático já que as cidades, em geral, não criam os espaços necessários a que essas pessoas possam levar uma vida ativa. A nova geração de idosos, ao invés de se trancar em casa, quer sair, se divertir, produzir e, sem dúvida, se enamorar. Isso explica a existência de uma forte demanda por iniciativas voltadas para terceira idade, tanto na área pública quanto privada. Esses espaços, mais que da saúde dos indivíduos, ajudam a saúde do meio urbano.
Ah, sim! Antes que eu esqueça, Dona Etelvina também ganhou presentes no dia dos namorados. E, se querem saber, foram mais de três.
Ps: Publicado originalmente em junho de 2010, na Revista PontoCon. Na ocasião, o programa Academias da Cidade, criado pela então prefeita Marília Campos, começava a deslanchar. Ao final de 2012, haviam 44 academias em funcionamento na cidade.